Ivo Borré

27.09.1957 (Porto Xavier, Rio Grande do Sul)
15.06.2021 (São Paulo, São Paulo)

“A gente se sente muito feliz por desenvolver uma região”

Figura 1. Sala de Prova de Cafés Especiais – Fazenda Progresso

A relação que se estabeleceu entre a Chapada Diamantina e o agricultor Ivo Borré pode ser definida como de perfeita simbiose. O gaúcho de Porto Xavier, que se tornou posteriormente baiano por adoção e reconhecimento, teve grande protagonismo no novo desenho socioeconômico da microrregião baiana. Chegou pela primeira vez à região em 1984 e, já no ano seguinte, como morador, acompanhado por alguns funcionários e pelo irmão Hélio, decidiu reproduzir a experiência que tinha com a produção de grãos no Rio Grande do Sul. A ausência de chuvas enfrentada na primeira colheita o levou a desistir da produção de cereais e voltar-se à produção de batatas, primeiro grande sucesso produtivo da Fazenda Progresso. Daí, por diante, novas culturas foram incorporadas à produção, contribuindo para que a Chapada se tornasse um relevante polo para a  produção de alimentos na região Nordeste.

O EMPREENDEDOR EM FORMAÇÃO. Ivo nasceu e viveu sua infância no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de São Paulo das Missões. Filho dos comerciantes Pedro Hugo Borré e Anna Borré, foi criado com seis irmãos. Apesar do ingresso da família no Brasil, a partir da  Alemanha, descobriu-se mais tarde, pela árvore genealógica, que os Borré tinham ascendência norueguesa e estiveram apenas de passagem por um período na Alemanha, antes de migrarem para o país tropical. Como muitos descendentes de negociantes, à época, interrompeu precocemente os estudos e, aos 15 anos, foi emancipado para ganhar sua carteira de habilitação e dirigir caminhão no transporte da soja, levando o produto dos armazéns da família para os armazéns das empresas exportadoras.

A situação financeira da família de Ivo Borré era estável e razoavelmente confortável, levando-se em consideração o ambiente onde residiam. A sua adolescência foi como a de muitos gaúchos de classe média do interior do estado. Durante a semana, tinha muito pouco tempo para o lazer, já que estudava à noite e trabalhava durante o dia. Aos finais de semana, participava de festas e bailes tipicamente gaúchos, além de se aventurar nas peladas de futebol e nas confraternizações estudantis.

Ivo tinha nos jogos de baralho uma de suas principais distrações, chegando a criar diversos grupos na cidade com esse fim. O interesse pelas diversões com cartas o levou a fundar um clube social. Até hoje, o espaço é o único com piscina existente na cidade na qual nasceu e cresceu.

O contato com a atividade laboral desde cedo permitiu que Ivo adquirisse experiência de vida e uma visão mais aguçada para os negócios, as quais estiveram permanentemente somadas à sua obstinação e vontade de fazer e ver as coisas acontecerem. Sempre teve um ímpeto pelas realizações, sendo possível dizer que esteve prematuramente preparado para o exercício de atividades empreendedoras e para a gestão de negócios.

Na sua cidade natal, e ainda bastante jovem, conheceu Judith Teresinha, a quem viria desposar. Como acontece nas cidades pequenas, todas as famílias se conhecem e, portanto, as famílias viram como de bom grado a união dos jovens Ivo e Judith.

DO RIO GRANDE DO SUL À CHAPADA DIAMANTINA. A atividade que a família Borré desenvolvia no Rio Grande do Sul no ramo da soja deve ser reconhecida como de intermediação. Os Borré se encaixavam na cadeia produtiva do grão entre os pequenos produtores locais e os cerealistas. Os homens da família cuidavam da parte comercial e logística da venda do produto, enquanto as mulheres trabalhavam na loja de secos e molhados, roupas e afins da família.

Pedro Borré, pai de Ivo, tomou a decisão de emancipar precocemente o filho, entregando-lhe a responsabilidade sobre as questões administrativas de compra e venda de soja dos pequenos produtores, bem como a logística e processos de venda ligados a cooperativas e exportadoras no Porto de Rio Grande.

Nos anos 1980, a comercialização da soja produzida no Sul do país tornou-se uma atividade mais crítica, inquietando os produtores da região e materializando a ideia de Pedro e Ivo Borré de explorar as novas fronteiras agrícolas do país, caminho já seguido por muitos produtores gaúchos. De início, foram para o oeste baiano, mas depois derivaram para a Chapada Diamantina.

Figura 2. Vinícola UVVA.

A PRODUÇÃO DA FAZENDA PROGRESSO. Em 1984, os Borré adquirem a sua primeira propriedade fora do Rio Grande do Sul. Saíram de São Paulo das Missões pensando em adquirir propriedades no Mato Grosso, mas para sorte deles e da boa terra, acabaram chegando em solo baiano. O negócio, segundo Ivo Borré, contou com uma lufada de sorte, ensejada por um interesse específico do antigo proprietário das terras adquiridas. Ao chegar em Ibicoara para fechar o negócio na sua camionete cabine dupla, viu o dono da primeira fazenda adquirida encantar-se pelo veículo. A concretização do negócio só foi possível com a cessão do automóvel como parte do pagamento. Ivo e Pedro Borré voltaram de ônibus para o Rio Grande do Sul, mas felizes pelas novas oportunidades que se abriam com a mudança de região.

As primeiras tentativas de produção se deram com a produção de cereais como a soja e o trigo, devido à experiência já acumulada no Rio Grande do Sul. No entanto, o longo período sem chuvas inviabilizou a safra. Houve a tentativa de outros plantios, como o do milho e da cebola, que  tampouco se mostraram alvissareiros no cenário de seca. No período de 1986 a 1988, passaram ao plantio de feijão. Primeiro, o feijão sequeiro, sem resultados satisfatórios e, em seguida, o feijão com o sistema de irrigação tradicional, autopropelido, que se mostrou mais efetivo em resultados.

Em 1990, no entanto, é que os ventos começaram a soprar mais favoráveis para Ivo Borré. A chegada de novos produtores na região veio trazer a cultura do plantio da batata inglesa que passou rapidamente a se disseminar, criando um novo e importante mercado. A Fazenda Progresso ingressou de forma bastante gradual na produção desse alimento, dedicando inicialmente apenas dois hectares para o seu cultivo, subindo gradualmente, até dedicar 2 mil hectares para a sua produção. A produtividade atual de 45 a 50 toneladas por hectare é superior à média nacional.

É justamente no final dos anos 90 do século passado e devido ao sucesso na produção de batata inglesa que a Fazenda Progresso experimenta o período de maior expansão empresarial. O produto teria uma importância que extrapolaria as atividades desenvolvidas na fazenda de Ivo Borré, sendo possível atribuir-lhe papel essencial no crescimento da própria região da Chapada Diamantina como território destinado à produção agrícola.

O conjunto de terras destinado à produção da Fazenda Progresso é situado a mais de 1.100 metros de altitude e circundado pela cadeia de montanhas que forma a Serra do Sincorá. O microclima é absolutamente diferenciado para o plantio, beneficiado pelas elevadas temperaturas durante o dia e pela expressiva queda durante a noite e madrugada. Nenhuma outra região permite que a batata inglesa seja colhida todos os dias do ano. Some-se a essa condição diferenciada, a quase exclusividade da produção na região Norte e Nordeste do país e sua posição geográfica privilegiada para a distribuição do produto nessas mesmas regiões. Essa conjunção favorável de fatores explica por que a região abriga hoje, entre outras, a maior produtora de batatas do mundo.

Em 2005, com a produção da batata já estabelecida, Ivo Borré identificou na elevada altitude da região, um potencial para a produção de café de elevada qualidade. A aposta foi certeira e hoje a Fazenda Progresso exporta mais de 80% da sua produção, levando café para cerca de dez países, atendendo exclusivamente o nicho de cafés especiais com o Café Latitude 13.

Figura 3. Ivo Borré

Com o cultivo do café já consolidado, no início da década seguinte, a fazenda se volta à produção de uvas, aproveitando a adequabilidade do clima da região e suas temperaturas que variam dos 8 aos 24 graus centígrados ao longo do ano, a partir de estações bem definidas que favorecem as videiras. A composição do solo é outra importante aliada para o plantio da uva. A região é tão fértil que os produtores estão mapeando nos mesmos parreirais, novos “micro terroirs”, pequenas faixas nas quais as uvas podem se revelar ainda mais especiais, sendo capazes de produzir lotes de vinhos ainda mais raros.

O projeto foi, desde o seu início, tratado com todos os cuidados de pesquisa, envolvendo o experimento de diversas variedades, testadas em campo em relação à adaptabilidade à região com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e no estabelecimento de um sistema de podas que beneficia a brotação das frutas. A positividade do cenário para a vinicultura, a partir da combinação de solo, clima, variedade e manejo traduziu-se em uma complexidade aromática única, determinando a criação da Vinícola Uvva, que seria inaugurada em março de 2022, e a entrada da família Borré no sofisticado segmento do enoturismo.

Com menos destaque, a Fazenda Progresso tem produção, ainda, de cebola, com a relevante produtividade de 100 toneladas por hectare, tomate, além de dedicar uma parte da sua área às atividades pecuárias.

Figura 4. Plantação de batatas da Fazenda Progresso

A CONTRIBUIÇÃO SOCIAL DA FAZENDA PROGRESSO. A Fazenda Progresso gera, atualmente, 950 empregos diretos, aos quais são acrescidos mais 300 temporários durante a colheita do café. Todos os colaboradores são moradores das regiões circunvizinhas, permitindo que a renda agregada impacte positivamente a economia, fomentando outros negócios e gerando recursos que permanecem na região, contribuindo, dessa forma, para a estruturação de atividades que alavancam o turismo, tão importante para a economia da região.

Compreendendo o papel alicerçante da educação para o desenvolvimento das pessoas e de uma região, Ivo Borré direcionou para essa área a sua atenção para as questões sociais. Desde 2011, a Fazenda Progresso mantém uma escola primária com a Prefeitura Municipal de Mucugê, construída com recursos próprios e doada ao município. A escola é a mais bem equipada da cidade e tem capacidade para atender 50 crianças. A infraestrutura diferencia-se das acanhadas escolas do interior do estado, oferecendo aos seus alunos biblioteca, além de salas de computação, áudio e vídeo. O espaço, além da formação de crianças se volta para a relação entre pais e filhos, promovendo uma evolução de comportamento nos adultos, sobretudo nas relações familiares.

Equipes da Fazenda Progresso constantemente realizam ações na comunidade com intuito educativo. Aos alunos, são incentivados projetos relacionados à preservação do meio ambiente, incluindo campanhas de plantio de árvores. Há, ainda, uma forte preocupação com a promoção da cultura nordestina, traduzida em eventos relacionados às questões folclóricas, a promoção de grupos de capoeira e a realização de comemorações em datas específicas diversas. Os resultados da educação diferenciada ofertada são relevantes não somente para as crianças diretamente beneficiadas, como também para os seus pais que se permitem a dedicação às atividades profissionais com a tranquilidade de saber que os filhos estão sendo bem formados.

Complementarmente, a Progresso apoia uma diversidade de outros projetos relacionados à região, incentivando atividades culturais e participando ativamente das campanhas de doações sempre que elas ocorrem.

O RECONHECIMENTO.A importância de Ivo Borré para o agronegócio baiano e da região da Chapada Diamantina, a sua visão empreendedora e a disposição para transformar ideias e projetos em realizações traduziram-se em diferentes formas de reconhecimento e premiações.

Em abril de 2017, Ivo recebeu da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) o título de cidadão baiano, diploma cedido pela sua legítima contribuição ao desenvolvimento da agricultura no estado e, em especial, na região da Chapada Diamantina. O deputado estadual Eduardo Salles, propositor do título, destacou Ivo Borré como uma das personalidades nacionais e internacionais no setor da agropecuária, não somente pela amplitude de visão que possuía do setor, mas pela sua capacidade de saber fazer gestão familiar. Atribuiu ao novo baiano ampla responsabilidade no reconhecimento do potencial da Chapada Diamantina para o agronegócio, traduzida na geração de mais de 5 mil empregos diretos no campo e no crescimento da economia da região.

Ainda segundo o deputado, a contribuição de Ivo Borré para o desenvolvimento regional transcendeu o arrojo com que sempre conduziu e obteve êxito nos seus negócios familiares, tanto pela sua ativa e destacada participação em associações classistas, como pelas articulações políticas
e demandas apresentadas aos governantes, sempre respaldadas pelo respeito que conquistou. Posteriormente, em 2021, recebeu o título de Cidadão Mucugêense pelos préstimos e contribuições à cidade de Mucugê. Muitas outras premiações empresariais foram outorgadas a produtos da Fazenda Progresso.

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