Lise Weckerle

04.03.1938 (Salvador, Bahia)

“Não devemos ter orgulho pelo que possuímos e sim por quem nos tornamos.”

Foto 1. A Ótica Ernesto.

Lise Weckerle foi diretora comercial e responsável pela área de propaganda e marketing de uma ótica cujas campanhas promocionais tornaram-se uma referência do ser soteropolitano. Tornou-se um exemplo de liderança empresarial e filantrópica pelo pioneirismo na presidência da Associação Comercial da Bahia e na função de provedora da Santa Casa.

OS PRIMEIROS ANOS NO BRASIL DA FAMÍLIA WECKERLE. A primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) impôs condições muito difíceis aos alemães, com elevados desemprego, violência e fome no país. Nessas condições, o avô materno de Liselotte Weckerle resolveu aceitar o convite de um amigo brasileiro para trabalhar em uma fazenda de café na cidade de Ribeirão Preto no estado de São Paulo. Foi assim que Inês, mãe de Lise, aos seis anos de idade, veio com sua família para o Brasil.

No mesmo contexto da Primeira Guerra, o pai de Lise, Ernst Weckerle, também alemão, foi convidado aos 18 anos para sair da Alemanha e ir trabalhar em uma joalheria em Recife que se interessava por ampliar a sua atuação no mercado de óculos. Como na época ainda havia pouco entendimento no Brasil sobre a confecção de lentes, Ernst foi instruído pelo seu patrão, pouco tempo após ter chegado em terras brasileiras, a voltar para Alemanha, ainda que em situação de guerra, para aprender técnicas de ótica na Zeeis – uma gigante europeia do ramo ótico que existe até hoje. Depois que voltou para o Brasil, aos 21 anos, Ernst Weckerle, conforme era desejo de seu chefe, começou a empregar os conhecimentos adquiridos para produzir óculos na empresa onde trabalhava em Recife.

Vinte anos depois, Ernst Weckerle, o pai de Lise, com 41 anos então, foi mandado pelo seu patrão para Salvador para tomar conta de uma filial da empresa recém-aberta na cidade. Na capital baiana havia uma colônia alemã, à qual se juntara anos antes Inês, a mãe de Lise, 13 anos mais moça que Ernst. Após se conhecerem, não demorou para que Ernst e Inês engatassem o casamento, passando a morar em uma casa no bairro do Rio Vermelho. Tiveram três filhos: a primogênita foi Lise e depois vieram seus irmãos Wilhem Weckerle e Wolfgang Weckerle.

Durante a Segunda Guerra mundial (1939 – 1945), quando os homens alemães passaram a ser perseguidos pela sociedade em várias cidades brasileiras, Ernst Weckerle acabou perdendo o cargo na empresa onde trabalhava e foi preso, mesmo sem nenhuma acusação concreta, em Salvador.  Nessas circunstâncias, a mãe de Lise, Inês, precisou tomar conta sozinha dos três filhos, alimentá-los e educá-los, o que fez por meio dos bordados que aceitava por encomenda, demandando jornadas de trabalho que se estendiam até as madrugadas para manter o sustento da casa. A resiliência de Inês marcou profundamente Lise que relata a inspiração materna para compreender que leveza e firmeza não são características irreconciliáveis. Aprendeu, ainda, com sua genitora a enfrentar as adversidades e a se orgulhar pela sua essência e não pelos bens que possuía. Depois do fim da guerra, quando conseguiu a liberdade, já em 1947, Ernst Weckerle usou os poucos recursos que a família ainda tinha para criar sua própria empresa, a Ótica Ernesto, que teve sua primeira sede situada no bairro da Piedade em Salvador. Na ocasião, nove entre dez comerciantes locais apostavam no seu fracasso. Com o trabalho sério desenvolvido, os Weckerle foram gradualmente conquistando a credibilidade de oftalmologistas e professores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que se tornaram frequentadores da ótica, onde trocavam informações técnicas com o seu fundador.

O FORJAMENTO DA GESTORA EMPRESARIAL. Após realizar o período primário dos estudos na Bahia, no bairro do Rio Vermelho, Lise foi para a Alemanha, atendendo ao desejo do pai de que experimentasse a diferença de cultura e de realidades e pudesse usá-las a seu favor na construção de sua educação e compreensão do mundo.

Como, na Europa do século XX, a visão de uma mulher comandando um negócio não era incomum, como era no Brasil, fazia parte dos planos de Ernst preparar a sua primogênita para que entrasse para os negócios da família e fugisse da forma como eram educadas a maioria das mulheres baianas da época – ensinadas a serem, sobretudo, boas esposas, boas donas de casa e boas mães. Foi assim que, aos 15 anos, Lise foi para Alemanha, retornando quatro anos depois, já formada em Economia e com a visão de que uma mulher poderia estar à frente de qualquer negócio, tanto quanto um homem, desde que estivesse capacitada para tal. Uma vez de volta ao Brasil, assumiu posição nos negócios da Ótica Ernesto, junto com seu pai, como era o desejo dele.

Nessa época, o negócio ainda era uma microempresa e o próprio Ernst cuidava dos detalhes de fabricação dos óculos, garantindo o índice de refração ideal das lentes e trabalhando para que cada cliente obtivesse os melhores resultados possíveis. Por seu lado, Lise cuidava da parte financeira, administrativa e de propaganda da empresa. Era ela quem fazia as visitas aos oftalmologistas para apresentar os óculos fabricados na ótica, quem ia pagar as contas da empresa nos bancos e quem fechava os números no caixa. Foi dessa forma que, incentivada por seu pai, Lise iniciou sua carreira na gestão empresarial.

Foto 2. Os diretores da Ótica Ernesto.

O DESENVOLVIMENTO DA CARREIRA EMPRESARIAL – AS EMPRESAS ESTÃO CONDENADAS A CRESCER. Uma das premissas norteadoras de Lise Weckerle é enxergar o crescimento empresarial como inexorável. Deste modo, as empresas estariam condenadas a crescer. Desde o início, em todas as posições que ocupou na gestão da Ótica Ernesto, deixou-se guiar por essa concepção, norteando as suas ações gerenciais não somente para a eficiente operação empresarial, mas também para garantir à empresa uma trajetória de crescimento e desenvolvimento. Foi sustentada por essa crença que a Ótica Ernesto deixou de ser uma microempresa para se tornar uma gigante do ramo. Em 1957, apenas dez anos após a sua criação, a empresa abriu a primeira filial e, em 1966, a terceira loja da rede.

Lise cuidou da parte financeira das Óticas Ernesto até passar essa responsabilidade para seu irmão Wolfgang, que assumiu como diretor financeiro em 1971, quando seus pais se tornaram conselheiros da empresa e passaram as cotas da sociedade para os filhos. O outro irmão de Lise, Wilhelm, assumiu como diretor comercial e ela ficou à frente das atividades de propaganda e marketing, setor que, sob sua responsabilidade, alavancou o crescimento do empreendimento.

A continuidade da expansão da empresa permitiu que, em 1976, incorporasse uma das suas maiores concorrentes no mercado, a Ótica Viúva Neves. Em 1977, foi inaugurado o Edifício Ernesto Weckerle na Avenida Garibaldi com o intuito de centralizar a administração da rede. Em 1983, foi inaugurado um grande laboratório ótico de última geração no município de Lauro de Freitas (BA).

Atuando na área de marketing, Lise fez uma aposta certa em propagandas muito bem elaboradas que atraíram um grande público de clientes. Elas foram criadas pela agência de publicidade baiana D&E no início dos anos 1980 e eram transmitidas pela afiliada da Rede Globo na Bahia. A partir delas, o bordão da empresa “Ernesto, meu rapaz” ficou famoso entre os baianos. Muitos o consideram, até hoje, o mais popular comercial de TV produzido no estado. A campanha se desdobrava em vários episódios, que misturavam leveza e humor e, mais que tudo, que tinham a capacidade de fazer o baiano reconhecer o seu jeito de ser ao assisti-lo na televisão.

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